O mais bacana de chegar aos 50 é estar aqui, no pico da montanha, olhando a imensidão da paisagem longe do chão - emoção sem igual. Daqui dá pra ver todas as coisas que já vi, bem ao meu redor, mas estão salpicadas de coisas que eu nunca tinha visto antes. Isso muda tanto o que vejo...
A montanha é a que a gente escolhe subir. Eu não quis muito alta, pra poder respirar com meus próprios pulmões e, assim, pensar meus próprios pensamentos. Também não quis muito íngreme, que era pra subir caminhando em torno dela, devagar pra não cair, vendo todos os lados.
Não tem pico estreito a montanha que escolhi. Aliás, aqui há uma grande planície onde posso estar segura e confortável, com todos que escolheram a mesma montanha que eu e confraternizar com eles, porque resumem minha vida (e eu a deles). Com eles vou erguer meu castelo com o que trouxe comigo. Isso me bastará por agora, que é o tempo de perceber a vida, mais do que qualquer outra coisa. Descobri, também, que os que já não estão aqui viraram rochas firmes e me deram calço para chegar no alto - mas não ao fim do caminho.
Mas o que compreendi de mais importante aqui dos 50 anos, no pico da minha montanha, é que sempre estive no alto, ou não poderia ter chegado a este lugar. O que acontece é que tem pedaços que a gente sobe com muito medo de cair, então só olha para o precipício em baixo de nossos pés, ou o que falta escalar acima de nossa cabeça. Se, em vez disso, olhássemos para o horizonte, veríamos até onde já chegamos, se estamos num caminho bacana e se as pessoas que passam por nós vão caber lá em cima...
O primeiro susto vem quando a gente começa a tentar subir montanhas que não são nossas, lá pelos vinte e tal, quando andamos em grupo, meio sem perceber onde passa e para onde está indo. Aí a gente passa pelos trinta e tal na dúvida se finalmente escolheu a montanha mais querida. Aí dá medo de subir pra ver direito e raiva de descer e perder tempo. É hora de não parar ,que é pra não petrificar-se. Ou sobe ou desce pra conferir, rever rotas, coisa e tal.
Quando chegam os quarenta e alguma coisa, a gente já está pra lá do meio do caminho e já dá pra perceber se aquela é mesmo nossa montanha. Tem que ter coragem pra fazer o que tem que ser feito e aí sim, ter certeza da montanha escolhida. Tudo bem errar o caminho. Só assim a gente conhece outros lugares que nem imaginava conhecer e que acabaram por servir de referência para o resto da viagem...
Quer saber? O incrível mesmo de chegar aos 50, feliz como estou agora, é saber perfeitamente que não é possível chegar aqui antes do tempo. E que chegar ao pico da nossa montanha não serve para anunciar vitórias, nem ficar bandeiras, muito menos ficar ali parada. Chegar aqui serve pra a gente saber que não voa "porque não quer, não porque não tem asas(*)".
Simone Saback
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(*) Paulo Leminski